COMPARTILHAR

Stefan Salej

 

Se pioramos na última Copa do Mundo de futebol tão drasticamente que o sentimento nacional de incapacidade nos atingiu de forma quase insuperável (poxa, até no futebol este país esta mal), isso não aconteceu com o nosso campeão tecnológico fundado nos idos dos anos 70 pelos militares da aeronáutica, a Embraer. Originária de uma das melhores escolas de engenharia do país, o ITA-Instituto Tecnológico da Aeronáutica, a empresa, cujo pai oficial é o Coronel Ozires Silva, grande amigo da nossa Fundação Dom Cabral, foi eficaz durante o período em que estava sob comando estatal e se tornou um campeão mundial após a privatização.

 

 

Viajar nos seus aviões pelas maiores empresas aéreas do mundo enche o peito de orgulho. Este avião é brasileiro. Feito no Brasil, ou Portugal ou Estados Unidos. Ele é o resultado de um conjunto de tecnologias desenvolvidas no Brasil e com os componentes como motores do mundo inteiro. E é claro, a parte eletrônica. Ou seja, uma perfeita integração à escala mundial de produção.

 

 

Nas exportações brasileiras, que são dominadas pelas commodities, a Embraer é o nosso exportador número um na lista dos manufaturados. Em um mercado internacional quase que oligopolizado pelas grandes empresas, a europeia Airbus e a americana Boeing, a Embraer não só enfrentou bem a concorrência da Bombardier canadense, com apoio escancarado do seu governo, mas também a de outros concorrentes. Venceu com competência.

 

 

Agora, a empresa precisa olhar para a frente e ver o que fazer. Nosso país, por si só, não oferece muitas oportunidades de desenvolvimento de empresas com alta tecnologia. Nossa indústria hoje, com raras exceções, como a WEG na área elétrica, Maxion nos transportes, Suzano e Fibria na celulose e papel, e mais algumas, é dominada pelo capital estrangeiro que não desenvolve tecnologia de ponta no país.

 

 

Portanto, encontrar alianças para desenvolver tecnologias e mercados é um caminho lógico para qualquer empresa. A oferta da Boeing para comprar a Embraer é totalmente lógica para a empresa americana. Mas será que ela tem razão de ser para a empresa brasileira, na qual o governo mantem poder de veto, Golden share, no caso da venda?

 

 

Recentemente, três países europeus, Reino Unido, Alemanha e França, e o mesmo vale para os Estados Unidos, restringiram a venda de empresas consideradas tecnológicas e estratégicas. Assim, se a Embraer quiser comprar, como os cervejeiros brasileiros fizeram com empresas de cerveja no mundo inteiro, a Boeing ou a Airbus, não pode.

 

 

Vender a Embraer , que é uma empresa privada, para a Boeing, não é vender uma empresa a mais para estrangeiros, é dar uma mensagem clara para quem desenvolver empresa no Brasil. A de que o negócio é vender a empresa e não insistir em enfrentar os desafios de tecnologia do mercado internacional.

 

 

Encontrar alianças é fundamental e provavelmente esse é o caminho da Embraer. Mas vender o controle da empresa, é vender a alma da esperança de que no Brasil somos capazes de fazer uma empresa global. Algo que ninguém em sã consciência faria, inclusive porque a Embraer é uma empresa sólida do ponto de vista financeiro. E não há duvida alguma de que a curto prazo haverá muita gente embolsando muito dinheiro na transação, e que a médio prazo, mesmo com todas as promessas e dizendo que a Boeing já tem centro de pesquisa no Brasil, a Embraer vai virar mera filial, executando ordens. Yes, sir, yes.

 

 

STEFAN SALEJ, consultor internacional, foi presidente do Sistema Fiemg e Sebrae MG.

COMPARTILHAR
Matéria enviada ao Portal Notícias de Itaúna. As matérias enviadas e publicadas no Portal Notícias de Itaúna não refletem necessariamente a opinião do nosso Portal de Informações e são de inteira responsabilidade das pessoas que as assinam.