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feA morte me amolou muito nestes últimos dias. Em 3 dias consecutivos, 4 pessoas de grande proximidade minha partiram. Minha querida tia Esmeralda, tão carinhosa comigo; meu amigo contemporâneo e companheiro de samba, José Pimenta; minha querida prima, amiga, companheira Cláudia, esposa do Irdevan; e quando chego ao velório estava lá o Noé da Rescar, de morte súbita, que cuidou do meu primeiro fusquinha e ficamos próximos Não há como não ficar assustado com tais perdas em tão pouco tempo. E como é chato o tal de velório. Vejo como prolongação do sofrimento dos mais próximos, enquanto a maioria dos visitantes ‘finge’ que está sentida. Tenho a impressão que não está nem aí… Mera formalidade e pouca solidariedade. A pessoa chega e quando abraça o ‘sofrente’ fica sussurrando abobrinhas da boca pra fora, para fazê-lo chorar, como se estivesse ali com um ferrinho de dentista, torturando o enlutado. Ah, neinh!… Aquele que acredita que o morrer é voltar para casa ao encontro de um Ser Divino, tem mais tranquilidade, fica mais calmo, se acomoda mais e tem mais conforto. Mas, para a saudade e a sensação de perda não tem remédio. A medicina tem progredido incrivelmente nas últimas décadas. Avanços tecnológicos, novas descobertas, vacinas, quimioterapia, radioterapia, antibióticos. Inventam aparelhagens impressionantes, tanto para exames diagnósticos como para tratamentos. A idade média de vida atual é de 73 anos e 9 meses para os homens (em Minas Gerais é de 75 anos e cinco meses) e de 77 anos para as mulheres – isso apurado em pesquisas de 2.010. Obviamente, o número de idosos aumentou, o que requer “uma série de implicações e investimentos necessários, dentre os quais se destacam medidas eficazes que garantam a saúde física e mental e o bem-estar social de uma população idosa”. Mas, apesar de tudo isso, continuamos mortais e temos muita dificuldade de lidar com a morte. Afinal, ainda é a única coisa que não tem solução. A morte é o fim da linha. Não deixa de ser um fato que causa um medo universal, um pavor, mesmo quando a gente sabe que consegue dominá-lo. No nosso inconsciente não concebemos a morte para nós mesmos. Dos casos que citei, o Pimenta e o Noé tiveram mortes tranquilas (para eles): Pimenta estava curtindo a vida no Rio, passeando, foi dormir e amanheceu morto. Noé, após um dia normal de trabalho, após o banho e o jantar, toma o chá da noite e vai ao banheiro e morre. Morrer dormindo e morte súbita é bênção. A pessoa com doença grave passa por momentos muito ingratos, que nem conseguimos entender o ‘por que’. Primeiro tem que ser removida do seu convívio familiar, levada para um hospital onde pode iniciar uma via sacra de sofrimentos. Uma coisa fica martelando na minha cabeça: o paciente gravemente enfermo perde o seu direito de opinar. Perde sua autonomia. Outras pessoas decidem por ela, onde internar, se vai para o CTI ou não, se vai tomar morfina ou não, se opera ou não opera… Fico pensando em mim mesmo como paciente de alto risco, será que eu queria ficar sem consciência, dopado? Será que eu ia querer ficar naquele ambiente frio e isolado de um CTI, ouvindo o barulho das máquinas, sem opção de nada, numa solidão total, sem direito a ter desejos, dar opiniões? Penso que vou querer curtir meus sentimentos e ter o direito de ser ouvido. Será que estarei sendo tratado como um objeto? Decidirão tudo sem o meu parecer? Esta ideia de abandono me apavora. Pode ser que os médicos e a família estão muito preocupados com o sofrimento físico, mas o sofrimento emocional e mental devem ser muito pior. Ei, muda de ideia. Vira esta letra pra lá… Não adianta, todos morreremos um dia. A vida é uma festa, vamos curti-la ao máximo, viver de instantes e aproveitar muito mais do convívio das pessoas que amamos, para que não tenhamos remorso e tristeza quando elas partirem… Porque, como dizia o me pai, Lauro do Jobito: “gente que nunca morreu tá morrendo”…

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