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fePassamos um dia inteiro tentando organizar as bugigangas que entulhavam um barracão nosso. Quanta nostalgia… Livros de várias gerações de buscas minhas. Amassados, dobrados, com mofo, amontoados… Fotos antigas, da minha infância, da minha banda ‘Os Penetras’, de namoro, de formatura, de casamento, dos meninos, da família, das praias… Quanta recordação. Deparei-me com volumes da minha tese de Mestrado, amassados, amarelados… E quanto trabalho eu tive para chegar naquele livro. Pesquisas bibliográficas, tradução de textos, experimentações, busca de amostragem, busca de resultados… Mostrei ao meu filho e falei: será que alguém tem coragem de ler isso? Eu não tenho… E um dia aquilo já foi um grande sonho na minha vida. Da mesma forma que meu título de Mestre… Hoje ficou tudo para trás, não dou a mínima… E aqueles livros cristãos, de Teologia, de autores diversos, contraditórios… Quanta bobagem havia em alguns deles e que um dia acreditei piamente. Como tudo passa, tudo voa… Lembrava-me da minha adolescência e da maneira que enxergava meus pais e meus tios, de como os via tão antiquados e tão ultrapassados… Foi com muita dificuldade que meu pai aceitou uma ‘máquina de escrever’, daquelas de teclado suspenso de bolinha, que para sair uma letra legível você tinha que descer o cacete. Os jovens de hoje nem sabem o que é ‘máquina de escrever’. Meu pai era o Escrivão do Cartório de Registro Civil da época. Ele acreditava que o documento para ter validade tinha que ser escrito à mão, como era feito naqueles livrões de duzentos quilos e com caneta tinteiro, de pena e custou a aceitar a tipo Parker, também tinteiro (não aceitava a esferográfica, muito moderna para ele). E hoje minha irmã Rosa, a escrivã atual, tem tudo informatizado. E que beleza. E minha mãe, com 87 anos, embarcou nessa, trabalha em um destes computadores no Cartório da Rosa. Se meu pai estivesse vivo ia pirar o cabeção. Não aceitaria nunca esta ‘modernidade’, como gostava de dizer. Felizmente, na minha época de entrar para uma Faculdade foi criada a Fundação Universidade de Itaúna. E tive a oportunidade de cursar Odontologia, na segunda turma, onde me formei com 22 anos. Até então poucos tinham a possibilidade de estudar na Capital. Hoje, os adolescentes falam línguas, viajam em intercâmbio para o mundo todo, têm uma facilidade para pesquisas, tudo pela internet, é só digitar no Google… No meu tempo, feliz era aquele que tinha oportunidade de consultar uma Enciclopédia… Eram muito caras. Hoje nem tem mais sentido uma Enciclopédia impressa… A tecnologia avança rápido demais e fica logo ultrapassada… Aliás, tudo fica ultrapassado de um dia para o outro. Meu primeiro computador, no sistema DOS, tinha 50 megas de memória e lembro-me que meu cunhado de Manaus, entendido no assunto, disse que eu nunca conseguiria ocupar toda aquela memória na minha vida toda. Hilariante… Não existia o sistema Windows. E aprendi tudo em DOS. Hoje, os meninos, como meus netos de 7 e 12 anos, dominam o computador, o tablet e smartphone como ninguém. Nossa! Vivo aprendendo com eles. Quando eu era adolescente tinha pena dos meus avós e dos meus pais que não tiveram a oportunidade de desfrutar do que eu estava desfrutando naquela época. Grande era a dificuldade para conseguir as coisas, tudo muito regradinho. Manteiga era passada no pão de um lado só e no sistema leva e trás. Não havia televisão, as pessoas dormiam muito cedo após ‘lavar os pés’. A iluminação era fraca, tinha que acender um fósforo para verificar se a lâmpada estava acesa… Será que hoje meus netos me vêm assim ultrapassado? No meu tempo para cursar uma pós-graduação era muito difícil. Especialização e Mestrado então, nem pensar. Hoje todo mundo tem pós-graduação, Especialização, Mestrado e Doutorado. Faz-se tudo on line, por internet… Caiu tudo no lugar comum… Não tem mais valor como era no nosso tempo. Apenas mais um diploma na parede. A Universidade de Itaúna está exigindo nível de Doutorado para ser professor agora. Em breve só com pós-doutorado e MBA. Sabem de uma coisa, de repente dei-me conta da minha vida exaurindo, escoando entre os meus dedos e eu me pre ocupando com coisas fúteis… Ah, neihn!… Tudo que consegui nestes anos de luta, de estudos, de títulos, de status social e financeiro – nunca poderão comprar os meus anos de volta… Fui.

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