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salario na cirseDepois de trabalhar três anos e meio na mesma empresa e não ter nenhum sinal de crescimento profissional, a estudante I. L. decidiu pedir demissão e tentar um estágio na área de arquitetura. O que ela não sabia é que a desaceleração da economia podia afetar o mercado de trabalho e tornar mais difícil uma colocação. Foram mais de seis meses distribuindo currículos e, sem nenhuma resposta positiva de um estágio, ela decidiu voltar para a área que ela já tinha experiência: departamento pessoal. Depois de mais um mês entre entrevistas e envio de currículos, ela finalmente conseguiu uma vaga em um escritório. O salário era menor do que no antigo emprego e os benefícios que ela tinha antes não faziam parte dos oferecidos pela nova empresa. “Eu não podia mais esperar. Todo mundo estava dizendo que o mercado ficaria ainda pior, por isso decidi aceitar uma proposta salarial menor. São mais de R$ 250 de diferença”, lamenta.

 
A história da estudante, que preferiu se manter no anonimato, está acontecendo com milhares de pessoas no país. O aperto no orçamento por meio do salário está se tornando comum no Brasil, uma vez que a diferença no salário dos trabalhadores desligados em relação ao dos admitidos cresceu. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), feito para o Estado de Minas, os salários de admissão ficaram menores no primeiro semestre de 2015, na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo o levantamento, em Minas Gerais, o salário de admissão caiu, na média, 2,8%, passando de R$ 1.147,71 para R$ 1.116,35. Na média do país, a queda é menor, 1,65%, passando de R$ 1.271,10 para R$ 1.250,39. Os dados já estão deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

 
Segundo especialistas, esse é o reflexo de um mercado de trabalho desaquecido, com queda na geração de postos de trabalho e aumento do desemprego, além da recessão econômica, com juros e inflação mais altos. Segundo o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Sabóia, é comum essa diminuição do salário num cenário econômico como o que o Brasil passa. “Inflação e desaceleração da economia é uma combinação terrível para o mercado de trabalho”, explica.

 
Ainda de acordo com Sabóia, o fato de o salário de admissão ter caído está dentro das expectativas do mercado econômico e os números podem ser considerados baixos, perto do cenário atual. “Estamos em um ano complicado e não sabemos até quando a recessão vai durar. Se pensarmos no percentual que a inflação já atingiu, veremos que a perda no salário admissional ainda é pouca”, relata.

 

Concentração

Para o diretor comercial do Grupo Selpe Hegel Botinha, especialista em recolocação de mercado, Minas perde mais do que o Brasil por ser polo de mineração, setor que vem sofrendo com preços baixos no mercado nacional e internacional, além de concentrar inúmeras indústrias automotivas que também sofrem com a redução do consumo no país e amargam queda nas vendas. “Minas possui uma concentração de setores que sofrem diretamente os impactos do momento econômico atual, o que explica, em parte, a queda”, reforça Flávia. Segundo o levantamento do MTE, os setores que tiveram queda mais acentuada na média do salário de admissão foram o de extrativa mineral (-4,1), serviços (-3,5%), indústria de transformação (-2,5%), comércio (-2,2%) e construção civil (-1,8). No estado, os únicos setores que apresentaram média de salário maior foram os serviços industriais de utilidade pública, passando de R$ 1.138,52 para R$ 1.434,09, ganho de 26%, e o da administração pública que antes era de R$ 1.634,53 e passou para R$ 1.689,83, alta de 3,3%.

 
No Brasil, os números caem menos que em Minas. Na indústria extrativa mineral, por exemplo, a queda no país foi menos da metade da registrada no estado, -1,35%. No setor de serviços, o país teve queda de 1,96%, seguido pela construção civil, 1,68%, a indústria da transformação, com 1,02%, e o comércio, com queda de 0,95%. Apenas os setores de administração pública e agropecuária, extração vegetal, caça e pesca apresentaram alta na comparação entre o primeiro semestre de 2015 com o mesmo período de 2014. Na administração pública, a média dos salários passou de R$ 1.747,89 para R$ 1.829,75, alta de 4,07% e a da agropecuária passou de R$ 1.039,97 para R$ 1.043,17, alta de 0,3%.

 
A assistente administrativa R.R.O. que preferiu não ser identificada, também sofreu os impactos da crise. Depois de ficar quatro meses desempregada, se viu obrigada a aceitar proposta de trabalho com salário três vezes menor que o que recebia na antiga empresa. “O cargo era o mesmo, as funções eram as mesmas, mas o salário era menor e não vi alternativa a não ser aceitar”, afirma. “Depois de um tempo, meu chefe criou um novo cargo, valorizou meu trabalho e hoje eu ganho até mais do que eu ganhava no antigo trabalho”, comemora

 

(UAI)

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