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planetaAs mudanças climáticas podem acabar com até uma em cada seis espécies de animais e plantas do planeta, de acordo com uma nova pesquisa.

 
Em um estudo publicado no jornal Science, Mark Urban, ecologista da Universidade de Connecticut, também descobriu que, à medida que o planeta esquenta, no futuro, as espécies vão desaparecer em um ritmo mais acelerado.

 
“Temos a opção. O mundo pode decidir em que lugar dessa curva queremos que a Terra esteja no futuro”, avisou ele em uma entrevista.

 
Apesar das conclusões aterrorizantes de Urban, outros especialistas dizem que a verdade é capaz de ser ainda pior. O número de extinções “pode ser duas a três vezes maior”, avisa John J. Wiens, biólogo evolucionário da Universidade do Arizona.

 
O aquecimento global aumentou a temperatura média da superfície do planeta em 0,8 graus Celcius desde a Revolução Industrial. As espécies respondem a isso mudando o alcance de seu ambiente.

 
Em 2003, Camille Parmesan, da Universidade do Texas, e Gary Yohe, da Universidade Wesleyan, analisaram estudos de mais de 1.700 espécies de plantas e animais. Eles descobriram que, em média, seus ambientes se deslocaram seis quilômetros por década na direção dos polos do planeta.

 
Se as emissões do dióxido de carbono e de outros gases do efeito estufa continuarem a crescer, os pesquisadores do clima projetam que o mundo pode ficar até 4,4 graus Celcius mais quente. À medida que o clima continuar a mudar, os cientistas temem que algumas espécies não sejam capazes de encontrar habitats adequados.

 
Por exemplo, a pika-americana, um mamífero parecido com um ramster que vive nas montanhas do Oeste, vem fugindo para elevações mais altas nas últimas décadas. Desde os anos 90, algumas das populações de pika que viviam mais ao sul desapareceram.

 
Centenas de estudos publicados nas duas últimas décadas produziram uma grande quantidade de previsões quanto ao número de extinções que serão causadas pelo aquecimento global. Alguns falam em poucas e outros dizem que 50 por cento das espécies podem desaparecer.

 
Existem muitas razões para a grande variação. Alguns cientistas estudam as plantas da Amazônia enquanto outros focam nas borboletas do Canadá. Em alguns casos, os pesquisadores assumem apenas alguns graus de aquecimento, em outros um cenário muito mais quente. Como os cientistas raramente conseguem dizem com que rapidez uma espécie vai mudar de ambiente, eles algumas vezes fazem estimativas.

 
Para conseguir uma imagem mais clara, Urban decidiu revisitar todos os modelos de extinção por causa do clima já publicados. Ele deixou de fora os estudos que examinaram apenas uma espécie, como o sobre as pikas-americanas, porque poderiam inflar artificialmente o resultado de sua meta-análise. (Os cientistas muitas vezes estudam uma determinada espécie porque já suspeitam que seja vulnerável à mudança climática.)

 
Urban selecionou 131 estudos que examinam plantas, anfíbios, peixes, mamíferos, répteis e invertebrados em todo o planeta. Ele analisou novamente todas as informações.

 
No geral, descobriu que 7,9 por cento das espécies têm previsão de serem extintas por causa das mudanças climáticas. Estimativas baseadas em baixo aquecimento previram muito menos extinções do que os cenários mais quentes.

 
Por esse cálculo, com um aumento de dois graus Celcius na temperatura da superfície da terra, 5,2 por cento das espécies seria extinta. Com 4,2 graus Celcius, 16 por cento.

 
Urban descobriu que a taxa de extinção não deve crescer de maneira regular, mas poderá acelerar se as temperaturas aumentarem.

 
Richard Pearson, biogeógrafo da University College London, disse que a nova meta-análise é “um marco que nos avisa que sabemos o suficiente para ver que as mudanças climáticas são uma ameaça importante à biodiversidade e aos ecossistemas”.
Mas afirmou que Urban está possivelmente subestimando a escala das extinções. A última geração dos modelos de extinção por causa do clima é mais precisa, afirma Pearson: infelizmente, eles também trazem estimativas mais terríveis.

 
Wiens também percebeu que os trópicos não foram bem representados nos estudos das extinções causadas pelo clima. Na meta-análise de Urban, 78 pesquisas tinham como foco a América do Norte e a Europa e apenas sete vinham da América do Sul. Porém, quando Urban contabilizou as informações dos estudos da América do Sul, descobriu que 23 por cento das espécies correm risco de extinção. Na América do Norte, entretanto, são apenas 5 por cento.

 
O que torna esse desequilíbrio mais flagrante, afirma Wiens, é o fato de que a maior parte das espécies do planeta viver em florestas tropicais, como a Amazônia. Se as pesquisas sobre as extinções causadas pelo clima levassem a diversidade dos trópicos em conta, os riscos do planeta em geral seriam muito maiores.

 
Urban admitiu que sua meta-análise está longe de ser definitiva. “É um resumo das melhores informações que temos por enquanto”, explica ele. À medida que as previsões se tornem mais consistentes, diz Urban, permitirão que os biólogos conservacionistas descubram as espécies que mais correm risco de extinção e ajudem a planejar estratégias para salvá-las.
Os cientistas que estão construindo esses novos modelos podem recolher informações não apenas das espécies vivas, mas também das que já foram extintas.

 
Na edição da semana passada de Science, um time internacional de pesquisadores relatou uma nova informação sobre as extinções nos oceanos dos últimos 23 milhões de anos.

 
Eles descobriram que alguns grupos, como os mamíferos marinhos, tinham mais chances de ser extintos do que outros, como os moluscos. A biologia pode colocar algumas espécies mais em risco ainda: elas se reproduzem pouco, por exemplo, ou vivem em um ambiente limitado.

 
Pearson diz que os modelos de extinção por causa do clima precisarão levar novos fatores em conta. “O que acontece com outras espécies em um ecossistema quando uma espécie é extinta?”, pergunta ele. Seus parceiros naquele habitat podem correr o risco de extinção também.

 
Urban descobriu várias maneiras de melhorar os modelos de extinção causada pelo clima. Por exemplo, eles podem levar em conta as cidades, fazendas e outras barreiras que os humanos constroem no caminho das espécies que estão procurando novos habitats.

 
Dados os resultados consumados das pesquisas até agora, diz Urban, esses novos modelos de previsão não chegarão tão cedo. “Precisamos melhorar esse jogo”, afirma ele.

 
FONTE: The New York Times

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Marcos de Paula Júnior é biólogo formado pela Universidade de Itaúna/2007, especialista em Microbiologia pela PUC-Minas/2011. Lecionou no estado do Pará na escola técnica SOTER 2007 à 2009 onde também morou com Índios da etnia Kyikatejê, desenvolvendo trabalhos de pesquisa em etno-ciência e educacão de 2007 a 2009. Professor na escola técnica Cecon – Itaúna/MG desde 2010, e sócio e consultor ambiental na empresa Ética consultoria.